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A liberdade de uma fugitiva: o exílio de Assata Shakur em Cuba

  • Writer: The Left Chapter
    The Left Chapter
  • Oct 4
  • 8 min read

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By Manolo De Los Santos


A notícia da morte de Assata Shakur em Havana, Cuba, em 26 de setembro, foi recebida com um profundo sentimento de perda compartilhada entre revolucionários e ativistas ao redor do mundo. Logo após seu falecimento, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, em uma reunião em Nova York, declarou simplesmente: “Cumprimos nosso dever”. Essa declaração humilde resumiu quatro décadas de compromisso inabalável do Estado cubano em proteger uma das revolucionárias mais procuradas dos Estados Unidos e em permitir que ela vivesse sua vida como uma mulher livre. A postura firme de Cuba, apesar da imensa pressão e das ameaças, nos lembra de uma verdade fundamental: os princípios de uma nação são revelados não apenas por suas palavras, mas pelas pessoas que ela escolhe proteger.


Uma vida de luta e despertar político


Nascida JoAnne Chesimard no dia 16 de julho de 1947, na cidade de Nova York, a vida de Assata refletiu a realidade turbulenta de ser uma mulher negra nos Estados Unidos. Ela atingiu a maioridade durante o auge dos movimentos pelos Direitos Civis, pelo poder negro e contra a guerra, um período que moldou profundamente sua consciência política e a de inúmeros jovens em todo o país. Ela inicialmente frequentou a faculdade comunitária Borough of Manhattan Community College e depois se transferiu para o City College of New York, onde se tornou uma voz poderosa do ativismo estudantil e uma importante organizadora. Sua jornada a levou a se juntar ao Partido dos Panteras Negras (BPP) no Harlem, uma organização que, em pouco tempo, deixaria uma marca indelével na luta pela libertação negra. Embora a grande mídia frequentemente tenha retratado o BPP como uma gangue violenta, Assata e outros o conheciam como uma organização vital, enraizada na comunidade, que organizava programas de café da manhã gratuito para crianças, oferecia clínicas de saúde, defendia a autodefesa contra a brutalidade policial e mobilizava a comunidade negra para a luta política.


Assata e muitos outros membros da seção de Nova York do BPP mais tarde se juntariam ao Exército de Libertação Negra (BLA). Essa organização clandestina surgiu de uma ala mais radical do movimento. Ela defendia a luta armada contra o governo opressor dos Estados Unidos, vendo-a como uma forma legítima de confrontar as infraestruturas da supremacia branca e do racismo no cerne da sociedade americana e alcançar a liberdade para os negros. Essa mudança também foi uma resposta direta à repressão brutal que o Partido dos Panteras Negras enfrentou por parte do governo dos Estados Unidos, que buscava desmantelar e destruir as organizações negras e de esquerda. Inúmeros líderes do Partido dos Panteras Negras, como Fred Hampton, foram assassinados, enquanto muitos outros foram incriminados, presos sob falsas acusações e mantidos como prisioneiros políticos por décadas.


A repressão do governo dos Estados Unidos ao Movimento de Libertação Negra não se limitou a prisões e julgamentos públicos. Uma campanha muito mais insidiosa, o Programa de Contra-Inteligência do FBI (COINTELPRO), operava nas sombras, sem conhecimento do público e dos ativistas que tinha como alvo. De meados da década de 1950 ao início da década de 1970, o COINTELPRO foi um esforço sistemático para “expor, perturbar, desviar, desacreditar ou neutralizar” organizações políticas consideradas uma ameaça à segurança nacional, tendo o Partido dos Panteras Negras (BPP) e outros grupos revolucionários negros como alvos principais.


O FBI, sob a direção de J. Edgar Hoover, via esses movimentos como uma grave ameaça interna. O programa utilizou uma ampla gama de táticas, desde guerra psicológica até violência direta. Agentes enviaram cartas anônimas para fomentar a desconfiança e a rivalidade entre líderes e organizações negras, muitas vezes levando a cisões internas e, às vezes, à violência. O FBI também utilizou informantes para se infiltrar em grupos, espalhar desinformação e provocar confrontos com as autoridades policiais. O objetivo era desmantelar esses movimentos a partir de dentro, sem nunca ter que admitir o papel do governo.


A existência do COINTELPRO permaneceu em segredo até o dia 8 de março de 1971, quando um grupo de ativistas que se autodenominava Comissão Cidadã para Investigar o FBI invadiu um pequeno escritório regional do FBI em Media, Pensilvânia. Eles roubaram centenas de documentos e, após analisá-los cuidadosamente, divulgaram os papéis às agências de notícias. Esses documentos forneceram provas irrefutáveis das atividades ilegais do FBI contra grupos políticos domésticos. A exposição levou à indignação pública, audiências no Senado lideradas por Frank Church e a uma maior compreensão dos limites que o governo estava disposto a ultrapassar para suprimir a dissidência.


O julgamento injusto e a fuga ousada


No dia 2 de maio de 1973, Assata foi parada na rodovia New Jersey Turnpike com dois companheiros, membros do BLA. Houve um tiroteio, que resultou na morte de um policial estadual de Nova Jersey e de um dos companheiros de Assata, Zayd Malik Shakur. A própria Assata foi baleada e gravemente ferida. O que se seguiu foi um julgamento amplamente divulgado como uma caça às bruxas. Assata foi acusada de homicídio, apesar de ter sido baleada pelas costas com as mãos levantadas. As provas contra ela eram frágeis e circunstanciais, com peritos forenses testemunhando que seus ferimentos tornavam fisicamente impossível que ela tivesse atirado com uma arma.


Apesar da falta de provas credíveis, ela foi condenada em 1977. Em um sistema projetado para esmagar a dissidência e criminalizar os negros, sua condenação era uma conclusão óbvia. “Sou uma escrava fugitiva do século XX”, disse ela. “Porque o sistema jurídico dos Estados Unidos é cruel, racista e injusto. E eu não tinha esperança de um julgamento justo.”


Após dois anos na prisão, em 2 de novembro de 1979, ela fez sua lendária fuga com a ajuda de outros membros do BLA. Esse ato de libertação não foi apenas para ela: foi um símbolo poderoso para o movimento.


O refúgio cubano e a hipocrisia dos EUA


Após sua ousada fuga, Assata Shakur conseguiu chegar a Cuba, onde recebeu asilo político em 1984. Para o governo dos EUA, isso foi uma afronta direta. A pressão sobre Cuba para que ela fosse deportada começou imediatamente e jamais cessou. A campanha contra Assata não era apenas a perseguição de uma fugitiva; era uma tentativa de fazer dela um exemplo, e de punir Cuba por sua solidariedade com ela.


O governo dos EUA tentou repetidamente criminalizar a decisão de Cuba de conceder asilo a ela, rotulando o país como “patrocinador do terrorismo”. A recompensa pela cabeça de Assata era um lembrete constante dessa campanha. Em 2005, a recompensa foi fixada em 1 milhão de dólares, uma medida que coincidiu com um período de hostilidade crescente e novas ameaças da administração Bush contra Cuba. Em 2013, o FBI, sob a administração Obama, elevou-a à sua lista de terroristas mais procurados, uma classificação normalmente reservada aos líderes da Al-Qaeda e do ISIS, e aumentou a recompensa para 2 milhões de dólares. Essa medida sem precedentes tinha como objetivo demonizá-la e justificar qualquer ação tomada contra ela, incluindo tentativas de capturá-la “viva ou morta”. O uso de outdoors, particularmente em Nova Jersey, constituiu uma campanha de relações públicas destinada a mobilizar a opinião pública contra ela e contra Cuba.


Autoridades cubanas defenderam sua decisão de forma consistente e veemente. Fidel Castro a chamou de “verdadeira prisioneira política” que era “vítima da repressão feroz contra o movimento negro”. Na sua opinião, a tentativa dos EUA de a retratar como uma terrorista era “uma injustiça, uma brutalidade, uma mentira infame”. Numa demonstração de desafio contínuo, outras autoridades e pessoas comuns em Cuba ecoaram este sentimento, vendo-a como uma convidada de honra e uma irmã de luta. Para Cuba, conceder asilo a Assata não era apenas uma questão política, mas uma questão de princípio, uma prova das suas convicções anti-imperialistas e anti-racistas.


Os terroristas vizinhos: Luis Posada Carriles e Orlando Bosch


A obsessão do governo dos EUA com Assata Shakur fica em evidência quando comparada ao tratamento dado a Luis Posada Carriles e Orlando Bosch Ávila, dois dos mais notórios terroristas anticubanos. Ambos eram exilados cubanos que foram abertamente financiados e treinados pela CIA para realizar uma campanha de violência contra a Revolução Cubana.


Seu ato mais infame foi o bombardeio ao voo 455 da companhia de aviação Cubana em outubro de 1976. O avião civil explodiu em pleno voo logo após decolar de Barbados a caminho da Jamaica, matando todas as 73 pessoas a bordo, incluindo toda a equipe nacional cubana de esgrima. Posada Carriles e Bosch foram presos na Venezuela pelo crime. No entanto, eles acabaram sendo libertados e foram de volta para os Estados Unidos.


Posada Carriles, um ex-agente da CIA treinado em sabotagem, explosivos e guerrilha, esteve diretamente envolvido no bombardeio e em outros ataques terroristas na América Latina. Apesar das provas contundentes e de suas próprias admissões em uma entrevista ao New York Times em 1998, o governo dos Estados Unidos se recusou a extraditá-lo para Cuba ou para a Venezuela. Em 2005, ele foi preso nos Estados Unidos por entrar ilegalmente no país, mas foi posteriormente libertado por um detalhe técnico.


Da mesma forma, Orlando Bosch, que foi preso e brevemente encarcerado nos EUA por um ataque com bazuca a um cargueiro polonês em Miami, foi posteriormente autorizado a retornar aos EUA após um esforço conjunto de lobby de proeminentes políticos cubano-americanos. O Departamento de Justiça dos EUA o descreveu oficialmente como terrorista, mas ele foi perdoado pelo presidente George H.W. Bush.


O tratamento contrastante dado a Assata Shakur e a esses dois terroristas diz muito sobre as verdadeiras prioridades do governo dos EUA. Enquanto perseguia uma revolucionária negra por décadas, os EUA proporcionaram refúgio seguro a homens que cometeram atos de assassinato em massa contra civis cubanos. Essa profunda hipocrisia expõe um evidente caso de duplo padrão: a dissidência interna é rotulada como terrorismo, enquanto a violência contra um suposto inimigo no exterior é considerada um ato político justificável. Isso ressalta a natureza política da perseguição a Assata e o duplo padrão do sistema judiciário dos EUA, e consolida seu lugar como um símbolo de resistência contra um sistema profundamente falho e injusto. Enquanto isso, até hoje, Cuba permanece na lista de Estados patrocinadores do terrorismo.


Um farol para as gerações futuras


A fuga e o exílio de Assata Shakur não foram simplesmente uma fuga física de um sistema injusto e violento; foram atos políticos e ideológicos. Sua crença inabalável em um futuro socialista, um mundo livre das forças exploradoras do capitalismo, do imperialismo e do racismo, foi o que a tornou uma profunda ameaça ao establishment dos EUA. Sua perspectiva era a de uma reestruturação fundamental da sociedade, uma visão que desafiava diretamente os próprios alicerces do poder dos EUA. É por isso que sua presença na Cuba socialista não foi um acaso, mas um ato profundamente simbólico de solidariedade. Para milhões de jovens que descobriram sua história, seja por meio de sua poderosa autobiografia ou de um simples pôster declarando “Assata é bem-vinda aqui”, ela é mais do que uma figura histórica. Ela é um testemunho vivo da possibilidade de resistência. Ela encarnou a coragem não apenas de pensar na mudança, mas de lutar por um mundo totalmente novo. Suas palavras, “não acho que seja possível ser revolucionário sem ter uma visão socialista”, servem como um farol, afirmando que a luta pela libertação negra está intimamente ligada à luta internacionalista por um mundo sem bloqueios, sanções, genocídios e imperialismo dos EUA. Seu legado é um poderoso lembrete de que a verdadeira liberdade exige que desmantelemos o antigo e construamos algo novo, juntos.


Manolo De Los Santos é diretor executivo do The People’s Forum e pesquisador do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social. Seus artigos são publicados regularmente na Monthly Review, Peoples Dispatch, CounterPunch, La Jornada e outros meios de comunicação progressistas. Mais recentemente, ele coeditou Viviremos: Venezuela vs. Guerra Híbrida (LeftWord, 2020), Camarada da Revolução: Discursos Selecionados de Fidel Castro (LeftWord, 2021) e Nosso Próprio Caminho para o Socialismo: Discursos Selecionados de Hugo Chávez (LeftWord, 2023).


Este artigo foi produzido pela Globetrotter

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